Crítica / MOTELX | Get In (2019)

Crítica / MOTELX | Get In (2019)

“Get In” é um filme forte, muito pessoal e intenso, capaz de colocar o espectador num cenário emocionalmente devastador.

★★★½

“Get In”, do realizador francês Olivier Abbou, desafia-nos a pensar um pouco sobre um cenário que destorce por completo a ideia de justiça e o próprio conceito de direito à habitação. E se um dia chegassem a casa, depois das férias, e encontrassem o portão trancado e uma outra família a viver lá dentro? Esta é a premissa do filme. Algo que surge assim um pouco vindo do nada, mas que parece ser uma possibilidade e algo que já aconteceu recentemente em França. À partida pensamos que a resolução é simples e que a lei está do nosso lado, mas como a família de Paul descobre no filme, parece que a realidade não é assim tão simples de entender. Depois de umas agradáveis férias em família, o pobre professor universitário vê-se confrontado com a sua casa ocupada, e com uma justiça quase ausente, que pouco ou nada faz para o ajudar, uma vez que ao abrigo da lei, a ocupação da sua própria casa parece dar alguns direitos aos novos ocupantes. Paul, que sempre foi um cidadão exemplar, humilde e inocente, vê-se numa situação que afecta a sua família e vê-se impotente e incapaz de regressar à sua própria casa. 

A falta de respostas da justiça e uma relação turbulenta com a mulher, levam Paul a cair num abismo emocional. Até que se torna amigo de um homem que o apresenta a uma nova realidade, e o conduz numa viagem perigosa e emocional. “Get In” conquista-nos com a premissa, e apresenta uma história muito pessoal e inesperada, que utiliza a ocupação da casa como rastilho para explorar a personalidade de um homem, que viveu sempre da forma mais correcta e inocente e que se vê privado dos seus direitos. Isto, aliado aos conflitos de uma relação frágil, contribuí para a construção de uma espécie de personagem heróica, à medida que Paul procura se tornar numa pessoa diferente, com o objectivo de reaver aquilo que lhe pertence. Oliver Abbou consegue explorar muito bem este lado mais humano da personagem, e é sem sombra de dúvidas este o aspecto que mais se destaca no filme, pelo que é fácil sentirmo-nos completamente em baixo, afectados pela injustiça que paira à volta da família. E depois de uma primeira parte tão emocional e humana, Abbou decide transportar-nos para uma realidade mais perigosa e explosiva, e é aqui que “Get In” se divide em dois, em que de um lado temos o thriller e o drama pessoal, e do outro o puro terror e uma escalada de violência quase inesperada. Esta transição abruta não surge do nada mas não é de todo harmoniosa, já para não falar de uma série de ideias que Abbout tenta explorar à volta da relação do casal, e do homem imponente que se torna num herói para conquistar a mulher e proteger a família, que acabam por ser o verdadeiro propósito do enredo, mas que parecem frágeis quando comparadas com a premissa que as acompanha. Com tudo isto dito, “Get In” é um filme forte, muito pessoal e intenso, capaz de colocar o espectador num cenário emocionalmente devastador.



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