Crítica / MOTELX | Midsommar – O Ritual (2019)

Crítica / MOTELX | Midsommar – O Ritual (2019)

“Midsommar – O Ritual” foi desde o iníco o grande destaque do festival, e ao cair do pano, o novo filme de Ari Aster é puro terror à luz do dia. Um filme inquietante, perturbador e por vezes engraçdao que explora as festividades de um culto pagão, enquanto um jovem casal procura salvar a sua relação de um fim iminente. Em suma, o melhor filme do ano até ao momento, e um dos filmes de terror mais marcantes da última década. 

★★★★★

O novo pesadelo do realizador Ari Aster, que trouxe ao mundo um dos melhores filmes de terror da década, é puro terror à luz do dia, em que a serenidade trazida por tons claros e coloridos é constantemente desafiada num mítico festival do Solstício de Verão no coração da Suécia. “Midsommar – O Ritual”, tal como “Hereditário” filme anterior de Aster conjuga uma componente familiar com o rituais míticos e sinistros, desta vez centrado à volta de um casal, Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor), que vê a sua relação num limbo e próxima de um final complicado, depois de um trágico incidente. Dani, confiante e determinada em salvar a relação, decide viajar com o namorado e os amigos para assistir às míticas festividades na Suécia. A tensão aqui é predominante, com uma interpretação impressionante de Florence Pugh, que carrega desde o início as emoções à flor da pele e vê-se confrontada com um namorado distante e os amigos deste que pouco ou nada apoiam a relação.

 

O momento em que o festival começa, marca o tom do filme dali para a frente, com paisagens de cortar a respiração, uma serenidade trazida pelos habitantes locais com os seus sorrisos simpáticos e de roupas claras. Por momentos parece que Aster nos tenta dizer que está tudo bem e não há motivo para nos preocuparmos, que em breve os problemas profundos da relação vão ficar resolvidos e convidá-los a desfrutar da sensação de paz que o festival nos transmite. E de repente, quase de rompante o grupo é confrontado com um ritual mórbido ao qual assistem incrédulos e sem hipótese de reacção. As festividades envoltas em torno das tradições de um culto pagão colocam o grupo de amigos numa posição incerta e de receios, e assim Ari Aster constrói uma narrativa dinâmica e inquietante que combina o carácter místico e sombrio dos rituais de um culto pagão com as fragilidades de uma relação com fim à vista.

Um dos aspectos mais interessantes em “Midsommar – O Ritual” está assente na forma como tudo decorre, com um misto de seriedade e desabamento emocional e de um humor e de uma serenidade que nos levam o espectador para um terreno desconhecido, onde nada é certo nem expectável. A contribuir para aquilo que chamei de desabamento emocional está a interpretação da actriz Florence Pugh que carrega o filme com um horror muito pessoal e um sofrimento que transparece tanto nas expressões faciais como na evolução da personagem ao longo do filme. Esta interpretação soberba serve como contraste ao tom festivo, sereno e cheio de luz, cultivando assim uma atmosfera cativante que torna a história de Aster numa experiência muito pessoal.

A juntar a todos estes pontos temos a banda sonora composta por músicas alegóricas e cânticos místicos que acentuam a ideia de viagem espiritual e tornam a experiência ainda mais imersiva. O resultado final do trabalho de Ari Aster é um filme inquietante, com algum humor pelo meio e perturbador, que consegue introduzir o espectador num cenário sereno, ao mesmo tempo que o coloca sob uma tensão difícil de descrever. O carácter místico dos rituais é apenas um aliado ao verdadeiro terror que Aster procura explorar, que deriva dos problemas de uma relação fragmentada. A forma como o realizador sabe construir as suas personagens e a profundidade que oferece às suas personalidades continua a ser uma característica desafiante e marcante do seu estilo, trazendo ao de cima por vezes a personagem interpretada por Toni Collette em “Hereditário”. O maior problema com “Midsommar – O Ritual”, é o equilíbrio por vezes frágil com o humor momentâneo, se bem que com o tempo isto acaba por ficar ofuscado pelo carácter memorável da história. Com este filme, Aster afirma-se mais uma vez como um dos mestres do género na actualidade, um realizador capaz de representar um estilo de terror cativante e marcante, que foge do carácter instantâneo a que estamos mais habituados, sobretudo porque aprendemos a gostar cada vez mais do seu trabalho com o decorrer do tempo. E é por tudo isto que guardo “Midsommar – O Ritual” como um dos meus filmes favoritos do ano, e sem dúvida um dos filmes de terror mais marcantes da década.



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