Entrevista / MOTELX | John McPhail – “Anna and the Apocalypse”

Entrevista / MOTELX | John McPhail – “Anna and the Apocalypse”
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A propósito da exibição do filme “Anna and the Apocalypse” durante a 12ª edição do MOTELX, o Panda’s Choice esteve à conversa com John McPhail, o realizador escocês por trás do filme, que esteve presente durante o festival.

Anna and the Apocalypse

John McPhail, é um realizador Escocês, responsável por uma das experiências mais surreais e mágicas em sala no MOTELX. Anna and the Apocalypse, o seu mais recente trabalho é um musical de adolescentes com zombies que tem dado que falar ao longo do circuito festivais, com salas cheias, euforia de fãs e muita diversão à mistura. A propósito da selecção para o MOTELX, o Panda’s Choice teve uma conversa animada com o realizador onde exploramos este trabalho em detalhe.

John, temos aqui um musical com zombies e uma pitada de humor negro… De onde surgiu esta ideia?

Esta era uma ideia de Ryan McHenry, o realizador e argumentista de uma curta de 2012 chamada “Zombie Musical”, vencedora de um BAFTA para Novos Talentos. A ideia surgiu enquanto estava a ver o “High School Musical” e pensou ‘seria fantástico se o Zac Efron fosse mordido por Zombies’. Era um objectivo do Ryan, evoluir a curta para uma longa-metragem, e portanto o Ryan começou a escrever o argumento com o Alan McDonald, o outro argumentista de “Anna and the Apocalypse”. Infelizmente, em 2015, o Ryan perdeu a sua batalha com o cancro e acabou por falecer. Os produtores não queriam abandonar a ideia, e acabaram por me encontrar…

Então podemos dizer que foi a ideia que te encontrou… Até porque filmes de Terror e de Acção não parecem fazer parte da tua filmografia…

Bem… Eles viram a minha primeira longa-metragem, uma comédia romântica passada num lar, e o público gostou bastante. Era uma história divertida e leve, com grandes personagens e repleta de sentimento… E os produtores pensaram que era mesmo isto que eles queriam para o“Anna and the Apocalypse”.


E quão difícil foi combinar a temática dos Zombies com um musical?

Em relação aos zombies, não foi assim tão complicado. A forma como eu sempre olhei para o filme foi numa estrutura de três actos, que correspondiam às respectivas mudanças de género, acabando por interligá-las no filme. Assim, o primeiro acto é uma comédia de adolescentes, onde conhecemos as personagens, descobrimos os seus sonhos e objectivos, começamos a gostar delas e a apoiá-las… E quando chegamos ao segundo acto, o filme vai gradualmente transitando de comédia de Terror para um drama, mais próximo do fim, até que no terceiro acto, o Terror toma o lugar. E nessa altura, eu espero que as pessoas e importem com as personagens, que se riam com elas, que as percebam e as conheçam… Para que nessa altura, estejam a reagir como “Não, não morras!” perante as cenas mais dramáticas.


Parte da inspiração para este filme veio de “Shaun of the Dead”, de Edgar Wright?

Bem, eu adoro o Edgar Wright… Eu adoro o trabalho dele à anos… Havia uma série de televisão no Reino Unido chamada “Spaced”, que era transmitida no Channel 4, e era escrita pelo Simon Pegg e pela Jessica Stephens e realizada pelo Edgar Wright. É uma série brilhante, e foi de onde surgiu a ideia para o “Shaun of the Dead”. Veio de um episódio em que um homem está sempre a jogar “Resident Evil” a toda a hora. Acho que o resultado final foi um filme brilhante, uma comédia de zombies, daquelas que não são nada frequentes. Acho que ele é um grande realizador, com uma capacidade magnífica para contar histórias e para trabalhar grandes elencos que estão sempre no ponto. Portanto, é impossível não me sentir inspirado pelo trabalho dele, e não apenas pelo “Shaun of the Dead”, mas por toda a carreira. No entanto, nunca tentamos fazer comparações, até porque há momentos neste filme que são próximos ao “Dawn of the Dead”, ao “Evil Dead”, ao “The Breakfast Club” e muitas nuances a filmes que todos gostamos particularmente dentro do género de Terror.

John McPhail, Anna and the Apocalypse (2018)
John McPhail, Photo by DMcCallum – © Duncan McCallum

Então, estavas a falar do elenco de “Shaun of the Dead” do Edgar Wright, e algumas coisas que mais gostei em “Anna and the Apocalypse” foram a sinergia e as personagens carismáticas, principalmente pelo desempenho dos atores, Ella Hunt, que faz de Anna, e Paul Kaye, que faz de diretor Savage, uma das personagens mais espetaculares de todo o filme. Como foi trabalhar com estes atores incríveis?

Ella… É um sonho trabalhar com a Ella. É uma das atrizes mais trabalhadoras com quem já trabalhei, é tão dedicada e adora o que faz, e falamos todos os dias sobre tudo que fazemos. Nunca era só… Era uma colaboração. E o mesmo acontece com o Paul. O Paul é um pensador. Tipo, quando toda a gente sai do set para ir para os green rooms relaxar, o Paul está constantemente a pensar e a experimentar coisas. E quando trabalhas com atores assim, sabes, o meu trabalho torna-se tão mais simples.

Estamos a falar de um musical e, tal como referiste, o primeiro acto é quase uma espécie de musical do Secundário… Mas à medida que a história progride e as cenas de acção se tornam mais intensas, a forma como os momentos musicais se interligam com as sequências de acção é quase como magia a acontecer no grande ecrã. A propósito desta harmonia, que existe ao longo de todo o filme, entre as músicas e o ritmo e o tom da história, como foi todo este processo?

Bem, muito obrigado… Durante a fase do argumento, quando entrei para o projecto, haviam 6 músicas preparadas, mas apenas 3 ficaram. Não queríamos partir o ritmo com uma música sem motivo, do género “oh passaram-se 15 minutos, devíamos pôr aqui uma música…”. Queriamos conduzir as personagens e a história, de forma a quem em cada momento, a música estivesse a ser interpretada com um propósito. Para além disso, os meus compositores, Roddy Hart e Tommy Reilly são simplesmente fantásticos e são pessoas muito divertidas, e eu não sou propriamente experiente em musicais. Do tipo, o meu musical favorito é o “South Park: Bigger, Longer & Uncut”… É como uma extensão da minha pessoa. Portanto, nunca me senti muito dentro do mundo dos musicais. Para mim, só tinha que sentir que as transições para os momentos musicais eram parte do mundo em que estes miúdos vivem e que são uma forma de expressarem a toda a gente o que estão a sentir.

Agora, sei que estou a entrar numa área mais sensível com spoilers, mas uma das coisas que me cativou mais no “Anna and the Apocalypse” é a forma alegre e festiva com que o filme começa, como a dança da Anna e do melhor amigo no cemitério, com os zombies atrás deles e a transição súbita para um tom cada vez mais escuro e para momentos intensos em que começamos a perder as personagens com que nos importamos, de forma algo inesperada…

Bem, as temáticas que surgem no filme são um pouco negras. Ainda que a tagline do filme seja “um musical de zombies passado no Natal”, as temáticas são muito mais complicadas, como adolescentes a experienciarem e a descobrirem a morte, da mesma forma que no mundo real, quando temos 16/17 anos, começamos a ouvir falar da morte nas notícias… Perdemos familiares e amigos… E de repente, quando damos conta, a morte envolve-nos, como adolescentes, e somos obrigados a crescer e a lidar com isso, com o nunca mais vermos aquelas pessoas nas nossas vidas. E é isto o que os zombies simbolizam no filme, são como a morte que surge na vida destes adolescentes. Para além disto, acho que se o filme fosse apenas e só tolo e fofinho, as pessoas não se iriam importar, e eu quero que o espetador goste das personagem, quero que não acabe a odiá-las e perguntar-se “mas quando é que vais morrer?”… Assim, há aqui uma série de temáticas negras, mas tentámos manter a história leve ao mesmo tempo, quase que agridoce.

Então há um pouco de coming-of-age neste mundo?

Sim, sim… 100%… Ela é uma rapariga de 17 anos, a começar a descobrir-se, a começar a sua feminilidade… Ela quer sair de casa e descobrir o mundo, e não existe nada mais coming-of-age do que isto.

E como tem sido a recepção do filme no circuito de festivais?

Tem sido de loucos, toda a gente adora o filme (risos), está a ser fantástico. Somos apenas um grupo de pessoas da Escócia que queriam fazer um filme divertido e, não esperávamos que as pessoas ficassem tão felizes e se divertissem assim tanto. Quer dizer, nós adorámos fazer o filme e tínhamos consciência do potencial, mas nunca esperamos o apoio, a adoração e a apreciação que o filme tem recebido por todo o mundo. Do tipo, em todos os festivais em que estamos presentes, há sempre alguém que fica verdadeiramente feliz por ver o filme. Tem sido fantástico. Até porque eu e a minha equipa… Nós fazemos filmes para as pessoas, não para nós, não queremos ouvir “oh a minha arte, a minha paixão… Nós queremos contar histórias para as pessoas. Pagamos muito dinheiro para ir ao cinema, portanto quero que aproveites ao máximo. Não quero que penses sobre o teu trabalho, a tua hipoteca, a tua renda ou o teu carro. Por uma hora e meia, quero que te sentes na cadeira e te divirtas. Por isso estou muito feliz com tudo isto.

As pessoas provavelmente perguntam-te muitas vezes isto mas… Porquê o Natal?

O Natal… É porque existe tanta cor, tantos costumes, e tanta diversão possível. Do género, adoro ver o Gremlins pelo Natal. Costumo por o Gremlins, o Die Hard e o Scrooged com o Bill Murray. São os meus filmes de Natal favoritos. A minha mãe adora o Natal e em Outubro ela começa a por as músicas na rádio, o que me deixa e a mim e ao meu irmão completamente doidos. Do tipo, estarmos a caminho da escola e ela começa a por músicas de Natal na rádio, enquanto nós estamos “Não não não…”. Por isso, digo sempre às pessoas que isto foi uma forma de aliviar as minhas frustrações em relação ao Natal, depois de anos e anos de raiva suprimida. (risos)

E qual seria a melhor forma de descrever o “Anna and the Apocalypse” a um estranho que não sabe nada sobre o filme?

É um musical de zombies passado no Natal… (risos) É um coming-of-age sobre uma jovem que um dia acorda e descobre que houve um apocalipse zombie, e então ela e os amigos têm de lutar, e cantar e dançar (risos), mas sem zombies a dançar e a cantar… Essa foi sempre a regra… Não podem haver zombies a dançar e a cantar…

E sobre projetos futuros? Alguma coisa neste universo?

Já discutimos a hipótese de fazer uma sequela para o “Anna”, mas não do estilo “Anna and the Apocalypse 2”. Eu, os produtores, os compositores e o enredo… Estamos todos a tentar voltar para fazer um novo musical. Até já pensámos em fazer um musical de ficção científica passado no espaço. Por isso, todos queremos fazer alguma coisa, mas neste momento temos projectos futuros a decorrer, como a Ella que está em Nova Iorque e eu, que recebo argumentos muito frequentemente, e que passei a ter agentes… Tem sido tudo fantástico, do tipo “Whaaaaaaa”. Por isso, estamos todos a trabalhar mas com a esperança de ter algo pronto ou algo para trabalhar no próximo ano.




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