Crítica | Linhas de Sangue (2018)

Crítica | Linhas de Sangue (2018)

Linhas de Sangue - Poster

  • De: Manuel Pureza, Sérgio Graciano
  • Com: Kelly Bailey, Soraia Chaves, José Fidalgo
  • 2h12min

Linhas de Sangue acaba por ser apenas mais uma tentativa de triunfar num país com grandes fragilidades na indústria cinematográfica mais comercial, que peca pela história pouco cativante, sem nexo, e pelo exagero e prolongamento de uma narrativa que deveria ser simples e eficaz (mesmo com barbaridades e piadas pelo meio).

2/5

 

 

Não é difícil compreender os problemas de Linhas de Sangue face ao contexto em que este se insere, pelo menos à superfície. Há problemas de investimento, uma desconexão entre as massas portuguesas e as produções nacionais e, no caso deste filme, o género peculiar pode desviá-lo da normalidade e atentar a um público que das duas uma, ou dá valor e mérito a esta tentativa nobre de trazer uma espécie de comédia negra descuidada, barulhenta e agressiva (um pouco de Aberto até de Madrugada com um pouco do humor descabido de Balas e Bolinhos e Capitão Falcão e muita má língua à mistura), ou então vai acabar por se perder na parafernália de situações exageradas e desconexas e que criam no final uma narrativa cansada a atabalhoada. Because it’s simply too much.

É uma reunião do non-sense à portuguesa, com algumas situações bem conseguidas mas que parecem meros sketches, com personagens invulgares (muitas, diga-se desde já, que seriam suficientes para completar uma equipa de futebol) e bizarras. O contexto e a sinopse do filme são breves e simples mas a execução prolonga-se por caminhos e por uma duração que roçam o exagero e revelam, por vezes, falta de nexo para com a narrativa principal, e que são o espelho de uma vontade de construir algo irreverente, bizarro e non-sense. Dei por mim a questionar-me o porquê de muitos daqueles “sketches” e a necessidade de explorar tantas narrativas de personagens que levavam o filme ao cúmulo de se parecer com uma autêntica caderneta de cromos. Esta é a história de uma revolução iminente em nome da defesa do nosso país, e de um homem que decide reunir uma espécie de elite portuguesa composta por heróis acidentais que surgem das múltiplas situações fora de contexto, mencionadas acima. É uma comédia capaz de suscitar algumas gargalhadas pelo meio, por piadas e situações bem conseguidas, mas que se perde nas suas não linearidades, ao não conseguir construir uma história cativante ou com um desfecho agradável.

Vale no entanto pelo esforço e por uma alguma originalidade e risco e por investir num tipo de conteúdo que é raro nas produções nacionais. Algo violento e bruto, personagens tresloucadas, e sequências bem trabalhadas a nível técnico… Linhas de Sangue oferece um pouco de tudo, numa estrada crescente de violência, que por vezes tenta, sem sucesso, ser provocador e algo sensual, talvez face ao seu tom mais cómico e jocoso, o que revela o contraste pouco harmonioso do carácter mais louco e bruto com a vontade de introduzir piadas mais fáceis referências à cultura portuguesa. É um filme acessível, ainda que tenha um conteúdo que possa não ser de fácil digestão, com um elenco repleto de caras conhecidas do público, uma banda-sonora funcional que combina com o tom mais negro do filme, mas que não consegue ser coerente e linear, focando-se demasiado no exagero e no non-sense que tenta promover desalmadamente. Linhas de Sangue acaba assim por ser apenas mais uma tentativa de triunfar num país com grandes fragilidades na indústria cinematográfica mais comercial, que peca pela história pouco cativante, sem nexo, e pelo exagero e prolongamento de uma narrativa que deveria ser simples e eficaz (mesmo com barbaridades e piadas pelo meio).



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.