OSCARS 2018 | Os vencedores e o comentário à grande noite do cinema

OSCARS 2018 | Os vencedores e o comentário à grande noite do cinema

Um breve comentário à cerimónia que congratulou injustamente o filme de Guillermo del Toro, A Forma da Água, como melhor filme do ano e que confirmou toda uma série de expectativas merecidas, entre as quais as vitórias dos actores e actrizes e a de Roger Deakins para melhor fotografia com o belo Blade Runner 2049, ignorado injustamente nas grandes categorias da noite.

Tal como no ano passado não tive oportunidade de assistir à cerimónia dos Óscares por motivos profissionais. A vida adulta dificulta um bocado a tarefa quando no dia a seguir é preciso acordar cedo. Em todo o caso, a curiosidade era inevitável e, assim que acordei já tinha o telemóvel pronto para descobrir quais foram os vencedores da noite. Não se pode dizer que tenha sido uma cerimónia de muitas surpresas, até porque a maioria dos vencedores foram justas confirmações. É o caso de todos os candidatos às categorias de interpretação (principais e secundários), sobretudo Frances McDormand e Sam Rockwell. Roger Deakins levou para casa o prémio de Melhor Fotografia pelo belíssimo trabalho em Blade Runner 2049, o que conduziu a uma vitória do mesmo em Efeitos Visuais, ofuscando a única hipótese de Planeta dos Macacos: A Guerra sair vencedor de alguma categoria. De certo modo, uma pequena partida da academia, face ao espetacular desfecho de Matt Reeves para uma trilogia exemplar.

Houve sempre lugar para piadas sobre os escândalos mais recentes e para a polémica  da cerimónia do ano passado, que levou Faye Dunaway e Warren Beatty para se redimirem e anunciarem mais uma vez o vencedor. Kimmel parece ser o ingrediente principal de uma fórmula de sucesso e, como seria de esperar, muitas das nomeações foram tentativas de trazer alguma paz e esperança a Hollywood. Um dos pontos mais positivos da noite foi a merecida consagração de Foge, o filme de terror de Jordan Peele que traz um novo fôlego ao indie horror, e a vitória de Chama-me pelo Teu Nome, ambos justos vencedores das categorias de Argumento Original e Adaptado, respectivamente. Contudo é precisamento Chama-me pelo Teu Nome que me leva a um dos pontos menos positivos da noite, a vitória de Remember Me de Coco como Melhor Música Original. Ainda que Coco fosse o inequívoco filme de Animação do ano, a música original de Chama-me pelo Teu Nome, Mystery of Love, foge à regra da categoria, quase como uma espécie de Amar pelos Dois, e é uma das mais belas e sentidas melodias seleccionadas pela Academia, superando o tom mais catchy e os ritmos mexicanos de Remember Me.

A nível de som e Edição, por mais que tenha sido fã do filme de Edgar Wright, Baby Driver, Christopher Nolan entregou-nos este ano um trabalho excepcional em aspectos técnicos. O som e a imagem de Dunkirk contribuem para a experiência envolvente e poderosa que o filme oferece, colocando o espectador num cenário de guerra onde o relógio e as emoções fortes não param. Ainda que não seja o trabalho mais forte apresentado por Nolan do ponto de vista de enredo, é notável a forma como o filme é apresentado, como um mero episódio de guerra, sem personagens relevantes, apenas com os rostos dos homens que estiveram presentes naquela complicada batalha. Um trabalho ofuscado pelo favoritismo claro de Guillermo del Toro que acabou por levar para caso o prémio de Melhor Realizador, por uma história de amor que tem o seu quê de fascinate mas que não consegue cativar nem apelar às emoções como outros filmes nomeados (caso de Chama-me pelo Teu Nome e Três Cartazes à Beira da Estrada). Parece que toda a cerimónia foi uma confirmação do ímpeto que A Forma da Água ganhou ao longo da época dos prémios. E sim, não sou fã da obra de del Toro, nem considero que tenha sido um dos filmes do ano, nem de perto nem de longe, existindo trabalhos muito mais competentes e peculiares que merciam a distinção e o apreço da academia. Nolan foi de certa forma vítima desta campanha, traído pela fantasia de um romance improvável com duas personagens peculiares, construído com a partilha de ovs cozidos.

 

Mas foi ao cair do pano, no fecho da cerimónia, que a cerimónia perdeu toda a magia e emoção, quando o nome A Forma da Água é anunciado como Melhor Filme do Ano. Como?! Pergunto eu! Numa categoria com nomeados marcantes e manchada por ausências de peso como Blade Runner 2049, a vitória do filme de del Toro é algo desapontante. Por um lado havia Foge, o improvável nomeado mas um dos mais badalados filmes do ano, uma produção que eleva o status do indie horror, confirmando a inovação e o potencial que tem surgido no género. O filme de Peele é uma deliciosa combinação de humor negro com suspense que vai adquirindo contornos inesperados e aterradores à medida que a narrativa progride. Um justo vencedor, para todos os efeitos. Mas eis que surgiu depois Martin McDonagh e o seu Três Cartazes à Beira da Estrada. A minha aposta pela forma extraordinária como um drama agonizante de uma mãe à espera de justiça pela morte da sua filha é apresentado como um thriller e um drama recheados com um humor negro súbtil, culpado por algumas das maiores gargalhadas que dei este ano no cinema. As personagens do filme de McDonagh, aliadas a interpretações fantásticas (duas das quais vencedoras da noite) ajudam a construir uma narrativa poderosa e sentida, da qual é impossível ficar indiferente. É, para todos os efeitos, um candidato irreverente que fora da época de prémios continuaria a ter a merecida atenção, é um filme inteligente e de fácil acesso (o que justifica a clara simbiose de opiniões de críticos e público) e sobretudo um dos melhores do ano. Ainda haviam dois (muito) improváveis vencedores na categoria, Linha Fantasma, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, que infelizmente não tive oportunidade de ver, e ainda Chama-me pelo Teu Nome, um belo romance de Verão que brilha pela honestidade, simplicidade e afectos partilhados pelas personagens. Mas falo de todos estes candidatos para dar o meu ponto de vista sobre o meu descontentamento p’la Forma da Água. Em primeiro lugar, eu gostei d’A Forma da Água. O filme de del Toro é bonito e cativante, tem uma mensagem bonita para uma narrativa romântica invulgar e momentos curiosos construídos com personagens especiais que representam o melhor aspecto do filme. Mas A Forma da Água não passa disto, é um filme bonito ponto. O que destingue a narrativa, o aspecto fantástico e romântico desta não é capaz de cativar a audiência per si, por ter sido explorado e construído sem provocar o espetador. Em termos visuais e de produção tem o seu valor mas a conclusão principal é que não é um trabalho uniformemente bom, nem vai perdurar na história como Três Cartazes ou até mesmo Foge vão. E isto porque falta o seu quê de especial para poder ser apelidado de filme de ano. E é este meu descontentamento por uma campanha injusta, de expectativas desmedidas que culminou na consagração de del Toro, que me leva a criticar a cerimónia deste ano. Um desfecho desapontante para uma Hollywood que quer virar a página e encher-se de esperança para o futuro.

Aqui fica a lista completa de vencedores:

  • Melhor Filme: A Forma da Água
  • Melhor Ator: Gary Oldman, A Hora Mais Negra
  • Melhor Atriz: Frances McDormand, Três Cartazes à Beira da Estrada
  • Melhor Ator Secundário: Sam Rockwell, Três Cartazes à Beira da Estrada
  • Melhor Atriz Secundária: Allison Janney, Eu, Tonya
  • Melhor Realizador: Guillermo del Toro, A Forma da Água
  • Melhor Filme de Animação: Coco
  • Melhor Curta de Animação: Dear Basketball
  • Melhor Curta-Metragem: The SIlent Child
  • Melhor Documentário: Icarus
  • Melhor Curta Documental: Heaven is a Traffic Jam on the 405
  • Melhor Montagem: Dunkirk
  • Melhor Filme Estrangeiro: Uma Mulher Fantástica
  • Melhor Fotografia: Blade Runner 2049
  • Melhor Guarda-Roupa: A Linha Fantasma
  • Melhor Caracterização: A Hora mais Negra
  • Melhor Banda Sonora: A Forma da Água
  • Melhor Canção Original: Remember Me – Coco
  • Melhor Direção de Arte: A Forma da Água
  • Melhor Edição Sonora: Dunkirk
  • Melhor Mistura de Som: Dunkirk
  • Melhores Efeitos Visuais: Blade Runner 2049
  • Melhor Argumento Original: Foge
  • Melhor Argumento Adaptado: Chama-me pelo Teu Nome

 



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