Crítica | Três Cartazes à Beira da Estrada (2017)

Crítica | Três Cartazes à Beira da Estrada (2017)

  • De: Martin McDonagh
  • Com: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell
  • 1h55min

Uma história forte, invulgar pelo estilo e pela forma como é retratada, que é no fim de contas a luta incansável de uma mãe por respostas e por justiça à inesperada e abrupta morte brutal da sua filha, que se traduz num brilhante triunfo para Martin McDonagh.

 

 

Três Cartazes à Beira da Estrada tornou-se desde a gala dos Globos de Ouro num favorito a ter em conta na temporada dos prémios e, muita da tinta e do apreço que o filme tem gerado deve-se a este facto. Sem dúvida, que o filme de Martin McDonagh é um relato brutal de uma mãe envolta em raiva e desespero, inconformada com a morte da sua filha adolescente e com a ausência de respostas em longos meses. Sem dúvida que a interpretação da mãe, interpretada por Frances McDormand, está carregada de sentimento, de mágoa, de desespero e é impressionante ver a forma como a personagem vive o seu dia-a-dia, com uma personalidade constantemente em erupção e em confronto com os restantes habitantes da cidade de Ebbing, no estado do Missouri. Tivesse este filme estreado em qualquer outra altura do ano, teria talvez todo um outro impacto, passando possivelmente mais despercebido pelas salas. Mas, verdade seja dita, o filme de McDonagh é tudo menos o típico filme a que estamos habituados a ver neste período.

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É um drama intenso que gira à volta da raiva constante e presente de uma mãe perdida que se sente abandonada e traída pela cidade e, que decide desafiar a tranquilidade e o desprezo alugando três cartazes numa estrada que fica no meio de nenhures, alegando irresponsabilidade e inércia por parte da polícia. Um grito de revolta desafiante que depressa chama a atenção dos locais e que coloca a esquadra da polícia em sobressalto. O chefe Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, é a principal vítima das acusações, mas num período pouco próspero para a justiça naquela cidade, todos de alguma forma se vêm envolvidos nas acusações, sobretudo o polícia mauzão e temível, Jason Dixon, interpretado por Sam Rockwell que se rege pelas suas regras e dita a justiça como bem quer e entende.

Há aqui todo um confronto cativante e intenso de personalidades fortes e de ambições desmedidas que se centram na raiva e no drama da mãe, Mildred (Frances McDormand), mas que vão muito mais além, quando sobrepõem os detalhes pessoais dos intervenientes e se assiste à transformação da personagem de Sam Rockwell. E o mais interessante no meio de tudo isto acaba por ser a forma subtil e inteligente como a tensão, o drama e a fúria de Mildred oscilam de forma inteligente e harmoniosa com momentos de humor negro delicioso compostos por piadas e detalhes que fazem toda a diferença no cair do pano.

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Woody Harrelson, com uma interpretação agradável e amistosa, vê-se ofuscado pelas impressionantes interpretações de Sam Rockwell e Frances McDormand, que dão vida a personagens complicados, com ideias e ambições que os levam a cometer ações que são por vezes difíceis de compreender, mas que conseguem cativar o espetador para as suas lutas pessoais, para as suas conquistas e para os confrontos intensos que surgem minuto após minuto numa cidade onde todos se conhecem. A personagem de Sam Rockwell por exemplo sofre uma espécie de metamorfose que torna todo o desenrolar do filme mais dinâmico e cativante, o que torna o filme numa experiência mais rica e criativa, estimulando o espetador a apelar e a torcer pela personagem.

E é à custa destas personagens com personalidades difíceis que colidem, de algum sarcasmo e de uma história triste, profunda e desafiante que Três Cartazes à Beira da Estrada conquista o público, numa oscilação cativante e muito agradável de momentos mais intensos e sombrios com um tom mais sarcástico, jocoso e leviano que é apresentado de forma inteligente e apropriada à ocasião, deixando-nos a refletir e a questionar sobre as ações e decisões das personagens ao mesmo tempo que surgem gargalhadas inesperadas e momentos absolutamente deliciosos. Uma história forte, invulgar pelo estilo e pela forma como é retratada, que é no fim de contas a luta incansável de uma mãe por respostas e por justiça à inesperada e abrupta morte brutal da sua filha, que se traduz num brilhante triunfo para Martin McDonagh.



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