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Crítica | Um Desastre de Artista (2017)

  • De: James Franco
  • Com: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie
  • 1h43min

Ainda me lembro bem da primeira vez que vi o The Room, o mítico filme do ano de 2003 daquele cujo nome acreditamos ser Tommy Wiseau, personagem desconhecida por mim até aquele momento. Não foi de todo uma experiência fácil de suportar, as cenas de sexo exageradas e estendidas para lá do limite do agradável, os diálogos sem nexo, as múltiplas falhas no enredo e sobretudo a presença de Tommy Wiseau… Nada disto é agradável à primeira vista e, de facto, só após divertidas discussões com amigos e um visionamento em grupo é que me apercebi da peculiar obra que é The Room. O famoso e mais digno de ser considerado tão mau que é bom, o fenómeno de culto que esgota salas pelo mundo fora com plateias com os diálogos na ponta da língua e sempre pronta a interagir com o desenrolar da acção no ecrã, e possivelmente um dos filmes que vi e revi mais vezes. É impossível ficar indiferente ao triângulo amoroso de The Room e aos detalhes deliciosos que perduram, sobretudo se visionados numa sessão em sala de cinema como foram as míticas Sessões de Culto organizadas pelo Filipe Melo no Nimas, onde a experiência do filme de Wiseau foi simplesmente genial. Wiseau queria construir um drama, um enredo sobre a tragédia de um triângulo amoroso com dois melhores amigos no meio e o resultado está à vista.

Pelas mãos do melhor amigo da personagem interpretada por Tommy Wiseau, Greg Sestero, chegou ao mundo o livro, he Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made, que retrata como foi fazer parte de toda esta experiência, uma espécie de Behind the Scenes que vai mais longe ao explorar a complicada mas emotiva relação entre Sestero e Wiseau. A harmonia entre humor contagiante e momentos emotivos e marcantes é tal que a experiência de leitura envolve-nos ainda mais neste pequeno mundo de Tommy Wiseau, tornando o The Room numa experiência ainda mais bizarra e cativante. E é perante todo este encanto e peculiaridade que James Franco decide prestar a sua homenagem à história de um homem que queria e sonhava em ser bem sucedido em Hollywood e que lutou por isso, acabando por realizar aquele que é conhecido como o melhor pior filme da história do cinema.

Um Desastre de Artista, de James Franco, é a adaptação do livro de Greg Sestero do ponto de vista de alguém que sente um enorme carinho pela história. A forma como Franco veste a pele de Tommy Wiseau é absolutamente fascinante, captando por completo a maneira de ser e estar deste, pelo menos como o conhecemos. Quase irreconhecível, a admiração e o empenho de Franco são notórios do primeiro ao último minuto, dando desde logo um ar muito pessoal e emotivo ao filme, quer pela forma como este interage com as restantes personagens, quer pela perfeita reconstrução dos momentos mais marcantes de The Room. A diversão e o empenho do elenco, no qual se destacam Dave Franco como Greg Sestero e Seth Rogen como Sandy Schklair, o co-realizador de The Room que deu o seu melhor na construção da visão de Wiseau, são um dos aspectos que salta logo à vista, à medida que revisitamos a construção de momentos revelantes. É impressionante a dimensão e grandiosidade do elenco, com grandes nomes pelo meio, e um cameo do próprio Wiseau, e pela forma como todos se envolvem vê-se a dedicação na construção desta homenagem.

Homenagem no sentido desta ser uma história que, apesar do resultado final caricato e dos momentos algo cómicos e bizarros que a compõem, acaba por ser a luta por um sonho de uma vida. A luta de um homem que, ao ver fechadas todas as portas da indústria cinematográfica, decide criar o seu próprio filme e partilhar este sonho com o amigo que o motivou e apoiou. E é a forma emotiva como Franco consegue chegar aos espetadores, com uma interpretação fascinante e uma adaptação que procura captar os maus momentos e a tragédia que acabou num fenómeno de culto, que torna Um Desastre de Artista numa experiência especial, para fãs e curiosos. A tensão e os conflitos mais caricatos, os momentos mais cómicos e as peripécias únicas e bizarras relacionadas com a personalidade única de Wiseau, numa transição entre o Behind the Scenes e entre a relação de Wiseau com Sestero faz de Um Desastre de Artista uma sentida e emotiva homenagem que reflete o percurso acidentado da produção de The Room, as loucuras incompreensíveis de Wiseau e o triunfante final como fenómeno de culto. Este é um filme importante, poderoso e cativante, um triunfo para James Franco, que se mostra aqui com uma dedicação e um carinho muito especiais, e uma mensagem de esperança única, divertida e emocionante.

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