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Crítica | Blade Runner 2049 (2017)

  • De: Denis Villeneuve
  • Com: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto
  • 2h44min

Não haviam grandes dúvidas de que Denis Villeneuve é um grande realizador, com um futuro promissor pela frente e um punhado de títulos recentes que marcaram os últimos anos na indústria. Quer O Primeiro Encontro como Sicario constituem claros exemplos de filmes marcantes, intensos que brilham em todos os aspectos, mas há toda uma magnitude diferente neste desafio que é realizar a sequência de um dos mais marcantes filmes de ficção científica de que há memória. Passaram-se 35 anos e continua ainda bem viva a memória e o espírito do épico noir de Ridley Scott, Blade Runner, que colocou Harrison Ford na pele de um polícia com a missão de capturar um grupo de clones fugitivos. O universo criado por Scott é, sem dúvida, majestoso e visualmente exuberante, expondo-nos a sequências muito apelativas, tons de cor mais negros e obscuros a contrastar com as cores vivas das luzes de néon e cartazes publicitários gigantes espalhados pelas ruas de uma Los Angeles futurista, já para não falar de uma narrativa que é ainda hoje tida em conta como um importante alicerce da ficção científica e da Inteligência Artificial no cinema.

Ora perante um dos filmes mais inspiradores e marcantes da história, a tarefa de Villeneuve passaria por, no mínimo se manter fiel ao universo e história originais. Algo complicado, face à admiração sentida por muitos pela obra de Scott, mas que na verdade, não só foi cumprido como se poderá tornar num Blade Runner para as novas gerações. A sequela de Villeneuve, Blade Runner 2049, centra-se agora na história de um agente da polícia de Los Angeles, um novo Blade Runner, K, interpretado por Ryan Gosling, que descobre um segredo enterrado com potencial para trazer o caos à sociedade e mudar para sempre a forma a relação e a definição dos Replicants com os humanos. O estilo noir e o tom mais negro continuam na tela, mantendo-se também o contraste de cores vivas das luzes, o que cria uma certa harmonia nostálgica e viva que faz toda a diferença em sequências visualmente brilhantes. Do original ao futuro aqui retratado, já lá vão uns 30 anos, e algumas coisas mudaram na integração dos clones na sociedade. A inteligência artificial está agora cada vez mais presente nas casas de pessoas e apresenta-se sob a forma de hologramas, aplicações e clones de carne e osso. Joi, a companhia de K, interpretada por Ana de Armas, é um dos fascinantes exemplos de como a tecnologia evoluiu por aquelas bandas e como a interação desta com a sociedade se aproxima cada vez mais das relações humanas.

Frutos de um plano de expansão megalómano por parte de Niander Wallace (Jared Leto), que tem como base os ideais e o negócio da empresa de Tyrell, os novos clones podem ser vistos como um meio útil para atingir um sonho de vida. E é à custa desta ambição desmedida e do segredo descoberto que K procura Rick Deckard, o mítico agente interpretado por Harrison Ford, numa espécie de reunião entre o passado e o futuro, num passar da tocha para a nova geração que nos agarra e prende a um autêntico espetáculo de cor, efeitos visuais e uma história que debate tópicos importantes da inteligência artificial.

É de admirar a forma como Villeneuve dá toda uma nova vida a um clássico do cinema, adaptando o estilo mais noir, calmo e intrigante do original a um cinema moderno que procura estimular o espetador com mais sequências vibrantes de acção e efeitos visuais. É como que o encontro perfeito de dois estilos que se cruzam de forma harmoniosa, culminando num filme que parece tão distante do cinema moderno mas ao mesmo tempo tão próximo e presente. As interpretações do novo elenco são também de destacar, em particular a de Ryan Gosling que carrega durante todo o filme postura abatida e uma audácia enorme, assentes numa personagem que cria desde logo uma ligação com o espetador. Fico apenas com pena de não ter sido explorada um pouco mais a personagem de Leto, um homem de negócios magnata que se apresenta ali como uma espécie de messias, carregado com uma personalidade misteriosa e algo inquietante.

Em aspectos técnicos, este é também um triunfo, com uma banda-sonora que roça em muitos aspectos a do filme original, oferecendo uma maior envolvência e tornando o filme ainda mais negro, e as já mencionadas sequências visuais que captam aquele que é o estilo de Blade Runner, introduzindo alguns aspectos mais próximos do cinema actual.

Blade Runner 2049 é um reencontro com o passado, uma viagem épica, visualmente estimulante e espetacular no que diz respeito à narrativa, ao ser capaz de envolver o espetador em todos os níveis numa história com mistérios e peripécias que se adensam e com personagens complexas com personalidades que cativam e criam empatia com o espetador. É um filme brilhante do ponto de vista visual, intrigante e por vezes inquietante com uma história que se aproxima da original mas que consegue ela própria inovar, contribuindo assim para um resultado final fascinante que, não só entretém e satisfaz, como oferece algo maravilhoso e promissor às novas gerações. Um triunfo no cinema dos tempos modernos.

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