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Crítica | Raw (2017)

  • De: Julia Ducournau
  • Com: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella
  • 1h37min

Começo desde logo por demonstrar o meu agrado, apreço e surpresa perante a obra de Julia Ducournau, Raw, um filme implacável e brutal que quebra os clichés e a norma do horror e procura afectar e provocar o espectador de forma memorável e eficaz. Ducournau explora a natureza humana sabendo trabalhar os exageros, as emoções e os desejos de forma notável, suscitando desde logo um certo interesse e fascínio não só pelo enredo mas também pelas personagens que o carregam e o marcam.  Raw é no fim de contas uma história de descobertas, de prazeres e desejos e que explora a natureza humana, confrontando estas muitas vezes com debates éticos e morais, numa combinação explosiva que em pouco mais de hora e meia me deixou estupefacto, aterrado e ao mesmo tempo fascinado por toda a brutalidade e naturalidade com que a história se desenrola.

Raw é a história de uma jovem vegetariana, que fruto da sua timidez e inocência se vê com dificuldades em se integrar nos estranhos rituais de praxe da faculdade de medicina veterinária. A sucessão de constantes desafios e provocações por parte de veteranos levam a jovem Justine (Garance Marillier) ao limite, levando-a a experimentar um pequeno pedaço de fígado de coelho por incentivo da irmã. Contra todas as expectativas, cresce em Justine um enorme desejo e vontade de consumir carne, sobretudo crua, que depressa transcende o que é tido como normal pela sociedade e atinge o canibalismo. De vegetariana a canibal, Raw explora esta descoberta de Justine, os seus desejos incontroláveis e as estranhas peripécias que ocorrem fruto destas.

Escusado será dizer que o impacto da transformação de Justine é enaltecido por uma grande interpretação de uma jovem Garance Marillier que surpreende e se destaca na pela de uma personagem complicada, com uma personalidade delicada e desafios complicados de expor perante o espetador. Aliada a esta revelação temos a forma fascinante e repleta de estilo com que as peripécias e a história se desenrola, conjugando uma fotografia algo obscura e vibrante com uma banda sonora que encaixa na perfeição e intensifica os momentos mais marcantes do filme. No seu todo, Raw é um filme que desafia o género, pela forma dramática e natural com que trata o tópico do canibalismo e a história, deixando de lado exageros e sustos e focando-se na transformação frenética e fascinante de Justine. Aqui o horror é sobretudo fruto de imagens algo gráficas e chocantes que podem provocar os mais sensíveis e da personalidade mais perigosa e brutal que Justine adquire mais perto da recta final.

Apoiada por amigos e pela irmã, a experiência do primeiro ano de faculdade de Justine é marcada por peripécias que podiam perfeitamente encaixar no perfil de um estudante, e é esta naturalidade que nos aproxima e nos leva a sentir empatia pelas personagens, levando-nos a torcer e a criticar as acções e escolhas destas. Chocante sobretudo a nível visual e pelo conteúdo do próprio enredo, que explora um tema tabú e sensível na sociedade actual, Raw explora de forma inteligente e cativante a transição de uma jovem inocente para uma jovem com desejos incontroláveis e uma enorme vontade de se descobrir e de se integrar na sociedade. É um filme desafiante que explora a natureza humana mas ao mesmo tempo que sabe ter a sua profundidade e a sua riqueza sem se deixar levar por pretensiosismos. Não é de fácil ingestão para os de estômago mais fágil e consegue ser provocador de uma forma quase sensual e atrativa, fruto de um estilo muito pessoal de Julia Ducournau que transforma uma jovem num monstro canibal, sedento de sangue, de forma atroz, provocadora e fascinante.

Possivelmente um dos filmes mais brutais dos últimos anos, com uma exploração da violência que se desvia do gore exagerado e se foca mais no drama, na atrocidade e na tragédia, nos aspetos psicológicos da dor e do desejo. É a sua naturalidade, o estilo fascinante e o tom provocatório e algo brutal que fazem de Raw uma experiência diferente do habitual que tem todo o mérito e potencial para se tornar num clássico de terror dos tempos modernos.

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