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Crítica | Foge (2017)

  • De: Jordan Peele
  • Com: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford
  • 1h44min

Há já algumas semanas que ecoa pelas páginas e publicações de cinema o nome do filme de estreia de Jordan Peele, pelas melhores razões. Uma estreia poderosa que se tem vindo a destacar como um dos mais promissores filmes de terror dos últimos anos, o que elevou sem dúvida a fasquia antes da minha visualização. Olhando para todo o género nos últimos anos, saltam logo à vista uma série de títulos que desafiam a norma e que inovam com enredos simples que chocam e provam o espetador e prova disso é o sucesso do festival MOTELX nos anos mais recentes. O terror independente está na moda e fez renascer todo um género que se via nas ruas da amargura com franchises e sequelas atrás de sequelas. Foge é a celebração de tudo isto, um trabalho arrebatador e provocador de Peele que nos deixa colados à cadeira, mergulhados na narrativa e completamente chocados com toda a crueldade, tragédia, ironia e estranheza que gera à volta de uma premissa tão simples.

Foge começa com uma simples ida de um casal de namorados a casa dos sogros. A típica viagem a um local isolado que já serviu de premissa a tantos outros filmes surge aqui de forma tímida com os receios de um jovem negro a dominarem a viagem. Receios esses que são atenuados pela namorada que o assegura de que os seus pais são pessoas simpáticas e vêm com bons olhos a sua raça. Pois é na chegada ao local que a história ganha contornos bizarros e curiosos, com reacções invulgares à presença do rapaz e uma estranha adoração pela raça negra que vai sendo o foco de todas as atenções nas diversas interações sociais entre as personagens. Surgem pelo meio alguns conflitos mais ou menos acesos entre personagens e momentos absolutamente deliciosos com a família da rapariga a julgar/admirar o rapaz de forma incrédula e peculiar. E à medida que a estadia prossegue, os contornos vão se tornando cada vez mais e mais bizarros e obscuros, tornando Foge num filme provocador e inteligente que sabe estimular e entusiasmar o espetador ao mesmo tempo que o choca e procura provocar.

Depressa deparamo-nos com uma temática séria a ser gerida com um tom invulgar, por entre piadas, momentos deliciosos e um recurso a sustos meramente acessório ao enredo que estimulam e agarram o espetador, levando-o a mergulhar bem fundo na trama e a procurar respostas para as questões e para todo o mistério que se adensa. Tudo cheira a esturro mas ao mesmo tempo somos reféns de um ritmo rápido, inteligente e calculado que desenvolve a narrativa sem apresentar pistas relevantes antes do tempo. O timing é aqui crucial e a estranheza e o carácter bizarro que dominam as interações entre a família e o rapaz são absolutamente deliciosos.

Uma história tão simples com um tema tão forte e complicado no centro das atenções que se torna numa experiência genial e promissora com um carácter bizarro muito próprio e uma interpretação de Daniel Kaluuya que transparece os medos e as emoções de um jovem perturbado e chocado de forma apelativa e emocionante. Jordan Peele constrói com Foge uma obra que combina algum humor e ironia com a dose certa de sustos e uma narrativa chocante que perturba o espetador graças à sua estranheza e peculiaridade. Um filme cuja narrativa se desenvolve a um ritmo rápido e cada vez mais pesado e obscuro e que sabe tirar partido das reacções do público e estimular este durante uma experiência verdadeiramente assustadora.

Foge é um filme corajoso e provocador que sabe jogar com as emoções do espetador para desenvolver um mistério e uma teia de intrigas que se adensa e adquire contornos inesperados. Uma estreia na realização de grande nível que coloca Jordan Peele na lista de nomes a seguir no género e que comprova a conquista do terror independente num género em alta que tem vindo a mostrar cada vez mais trunfos surpreendentes. Quer pela forma brilhante como brinca com um tema sério e complicado e pela forma bizarra e curiosa como se apresenta perante o espetador, quer pelo tom misterioso e pelo tom mais divertido que contrasta com os momentos mais sérios e pesados, Foge é um autêntico espetáculo de emoções que estimula e choca o espetador, envolvendo-o numa narrativa com contornos negros e inesperados.

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