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Crítica | Hardcore (2016)

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  • De: Ilya Naishuller
  • Com: Sharlto Copley, Tim Roth, Haley Bennett
  • 1h36min

Numa época caracterizada pela inovação tecnológica e pelo desenvolvimento de experiências cinematográficas que promovam a imersão do espetador, eis que surge o resultado daquilo que parece ser um ensaio filmado com recurso a câmaras GoPro Hero3 Black Edition e que promete reinventar o conceito de imersão no velhinho formato 2D, mesmo que um ecrã IMAX ou uma sessão 4D adicionassem um potencial incrível e incalculável ao filme. Hardcore é, se me permitem, a concretização de um desejo que paira há alguns anos em Hollywood para trazer ao grande ecrã as emoções e a imersividade de um jogo de vídeo. Uma experiência inovadora na qual somos postos num autêntico cenário de guerra unicamente pelos olhos da personagem principal, Henry, que não se lembra de nada do seu passado e que é confrontado pela mulher que diz que o trouxe dos mortos e o transformou num super-soldado por ser a única forma de salvar a humanidade de um vilão psicótico chamado Akan.

Pela perspetiva de Henry, mergulhamos bem fundo num experiência louca, delirante e extremamente violenta em que assistimos a combates corpo a corpo, confrontos com lança-chamas, armas de grande porte, tanques, explosões e muito mas mesmo muito sangue derramado. As épicas e intensas sequências de ação enchem-nos de adrenalina e estão repletas de detalhes deliciosos que dão um carácter mais ligeiro a todo este cenário de violência gratuita. Percebe-se a intenção de criar um filme por diversão e pelo menos para o público alvo a boa disposição é uma garantia (quase) segura. E digo quase se não fosse o eterno problema do movimento e do shaky cam que dificultam a tarefa de seguir algumas das sequências, ainda que tornem o filme numa experiência absolutamente imersiva e inovadora.

O problema do filme passa sobretudo pela falta de nexo e de coerência no enredo, com um vilão apresentado às sete pancadas, do qual não sabemos nada, não ser que tem poderes telepáticos e que quer dominar o mundo com recurso a super-soldados, criados com um processo semelhante ao que Henry esteve submetido, impedindo que se crie algum elo ou alguma tensão entre as personagens. Em Hardcore os inimigos aparecem às paletes e morrem em conjunto, por vezes de forma hilariante, como se tratassem de meros crash dummies e por vezes de forma mais séria e agressiva, tornando o filme numa violenta jornada pessoal de vingança. A acompanhar Henry vemos diversas versões de Sharlto Copley, todas de nome Jimmy e todas com informações fulcrais para a missão do mercenário, ainda que sem certezas se este é um cúmplice de Akan ou um mero e simpático ajudante que está ali como se fosse a voz da razão num jogo de vídeo a dar dicas nos momentos mais aflitivos.

Com a mulher raptada, um vilão louco à solta e a polícia subornada e rebeldes loucos espalhados pela rua, Henry vê-se numa enorme encruzilhada na qual o tempo escasseia e na qual ninguém é de confiança. Sem qualquer memória do passado e com uma enorme sede de vingança, Henry tira partido do seu potencial para dizimar por completo o império de Akan numa missão brutal, agressiva, delirante e repleta de adrenalina, imprópria para um público mais geral e que deve ser vista com curiosidade e com a ideia bem assente de que o objectivo de tudo isto é entreter e não cativar com um argumento de enorme qualidade. Hardcore estabelece as bases para um novo tipo de imersividade no grande ecrã, em que da perspetiva da personagem principal somos que completamente transportados para aquela realidade louca. E com uma banda sonora que complementa os momentos mais pesados, dando-lhes uma harmonia e uma envolvente mais ligeira e animada, Hardcore cumpre o objectivo de entreter, divertir e de mostrar ao mundo que é possível criar um cenário realista digno de um jogo de vídeo sem grandes exageros e com algum humor pelo meio. Exagerado, brutal e eletrizante, Hardcore tira partido do seu carácter louco e violento para colmatar as falhas de um enredo com pouco interesse e objectivo, tornando-se numa experiência sem igual, que não é fácil de agradar nem de digerir mas que consegue surpreender os que há muito esperavam viver a imersividade de um jogo de vídeo numa sala de cinema.

stars_12

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