Crítica | Salve, César! (2016)

  • De: Ethan Coen, Joel Cohen
  • Com: George Clooney, Josh Brolin, Ralph Fiennes
  • 1h46min

O mais recente filme dos irmãos Coen, que nos brindaram com tantos argumentos memoráveis funciona tanto como homenagem, como paródia num estilo mais leve e jocoso que traz ao grande ecrã a era de ouro do cinema, com os agitados estúdios a produzirem filmes sobre tudo e mais alguma coisa num ritmo frenético sem precedentes. Uma obra que, mesmo longe do prodígio de aclamados filmes da dupla de realizadores não deixa de ter algum brilho e particularidades muito características, fruto das interpretações de um elenco repleto de grandes nomes em posições e personagens algo caricatas que procuram satirizar com moderação a indústria cinematográfica de então.

É no entanto, neste ambiente de paródia, de festa e de celebração que reside o ponto mais fraco do novo filme dos Coen, a falta de honestidade e de naturalidade que se perde com os exageros, tanto a nível de argumento como de personagens. Esperava-se mais destes senhores sim, sobretudo com um elenco que conta com Josh Brolin, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton e ainda George Clooney numa personagem que só por si representa uma clara crítica aos abusos, à ignorância e aos exageros que caracterizam muitos dos episódios mais tristes de Hollywood desde o início dos tempos. A estes nomes juntam-se ainda uns outros tantos para uma verdadeira chuva de estrelas na qual poucos brilham e com Brolin e Fiennes a destacarem-se pelas suas performances.

O ritmo frenético, agitado e cativante de Hollywood nos anos 50 é representado em Salve, César! sem papas na língua e com muitos momentos caricatos e divertidos pelo meio. A história centra-se no homem responsável por manter a integridade do estúdio, Edward Mannix (Josh Brolin), com um jeito incrível para lidar com os desvaneios, os escândalos e as exigências das estrelas. Uma vida atribulada, louca por vezes e excêntrica na qual os problemas surgem de forma quase que imparável. A performance de Brolin é o elo de ligação para todas as pequenas histórias e intrigas que se geram em redor das personagens do estúdio, enquanto participa ativamente procurando satisfazer os interesses de todos. Contudo, nada o poderia preparar para o misterioso desaparecimento do actor Baird Whitlock (George Clooney), a estrela de uma das megas produções do estúdio “Salvé, César!”, que se vê raptado perto do fim das filmagens. Com prejuízos e rumores a caminho, Edward coloca o desaparecimento do actor no topo das suas prioridades e é nesta busca que somos apresentados à personagem bruta, ingénua e exagerada que dá um toque demasiado cómico ao filme. Falta naturalidade a Clooney e isso sobressai-se em todos os momentos em que este é o centro das atenções. Raptado por uma peculiar organização criminosa que se prepara para exigir ao estúdio um resgate avultado, Baird conta com a astúcia de Edward par ao salvar, enquanto este continua a dar o seu melhor para satisfazer as estrelas e manter os rumores e as exigências controlados.

Mais do que uma homenagem à indústria cinematográfica, sobretudo a dos anos 50, Salve, Cesar! não tem o argumento ambicioso, típico dos Coen, e peca por se perder demasiado nas piadas e na sátira, ao invés de se focar nas personagens e no desenvolvimento destas, mesmo com tudo aquilo que prometem oferecer à trama com as suas personalidades únicas e extravagantes. O mais recente filme dos irmãos Coen é um espetáculo de celebridades que brilham por breves momentos e dão a lugar a outras, numa sucessão de detalhes e cenas peculiares para serem disfrutados com alguma moderação. Ainda que houvesse espaço para criar uma história muito mais empolgante e sobretudo interessante, há aquele toque especial dos Coen que nos delicia em cada minuto de filme. Esperava-se mais é certo, sobretudo com um elenco de tamanha grandeza e um potencial igualmente considerável mas também há que dizer que esta divertida sátira cumpre o objetivo de entreter e de homenagear toda uma indústria que, mesmo com os seus podres e momentos menos bons, vive à altura do desafio, prevalecendo a grandiosidade de obras que nos tornaram de alguma forma cinéfilos.

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