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Crítica | Trumbo (2015)

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  • De: Jay Roach
  • Com: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren
  • 2h4min

Numa espécie de mixórdia entre biopic e retrato social chega-nos de Jay Roach a adaptação cinematográfica da história de vida do argumentista Dalton Trumbo que se colocou na frente de uma notável luta contra o preconceito vivido nos Estados Unidos por volta dos anos da Guerra Fria. Uma história que aparenta ser um filme biográfico focado única e exclusivamente no argumentista em foco, para a qual a interpretação impecável de Bryan Cranston contribuí bastante, torna-se subitamente num retrato interessante e esmagador de uma indústria cinematográfica envolta em questões políticas e sociais que deita fora todo o pretexto e toda a razão da arte para dar lugar a ideais políticos desadequados e injustos. Trumbo é um curioso retrato de tempos difíceis em que nos é apresentada uma das épocas mais difíceis para o cinema.

Esta é a história de uma indústria em tempo de guerra contra o comunismo que vê como adversários alguns dos seus mais ilustres membros, onde se insere o grande argumentista Dalton Trumbo que em 1947, juntamente com outros artistas, foi acusado de traição, adicionado a uma lista negra de personalidades e condenado à prisão por incitar a uma pressuposta revolta contra os ideias e o governo norte-americano. Acusado injustamente, Trumbo e as restantes vítimas do preconceito, unem-se para derrotar a indústria, fazendo o que melhor sabem fazer, escrevendo múltiplos guiões para filmes sem se exporem e sem revelar a identidade. E é nesta pequena revolução contra as injustiças e as acusações absurdas que Dalton triunfa ao receber dois prémios da Academia e ao trabalhar para grandes nomes que o vêm como o grande e talentoso argumentista que sempre foi.

Trumbo é um retrato de uma indústria de outros tempos que facilmente se relaciona com as recentes polémicas de uma Academia demasiado conservadora e pouco diversificada. Uma crítica às influências políticas e sociais que se sobrepõem muitas vezes à excelência da arte e que ainda hoje, vários anos depois do fim da lista negra, se continuam a verificar, ainda que de forma mais discreta. É com o argumentista Dalton Trumbo em foco que somos convidados a conhecer a sua história pessoal e a história daqueles que lutaram pelo valor da Arte e por uma indústria cinematográfica mais justa, diferente daquela que é dominada pelos interesses e ideais de pessoas com poder e com elevado estatuto social.

O filme de Jay Roach afirma-se como uma obra interessante que homenageia um dos grandes argumentistas de Hollywood mas que procura constantemente tornar-se nalgo mais simbólico e memorável. Quase que como uma verdadeira chamada de atenção ao preconceito e o conservadorismo da história, Trumbo procura agarrar-nos a uma luta incansável de um Bryan Cranston que dá o seu melhor numa grande interpretação, viva e carregada de emoções fortes. Mas são precisamente as tentativas de trazer algo mais ao ecrã que se tornam no calcanhar de Aquiles deste. O ritmo irregular e pouco apelativo impede a criação de uma envolvente empolgante para nos deixar empolgados e agarrados ao ecrã e para além da família do argumentista e da cronista Hedda Hopper, interpretada pela veterana Helen Mirren, as restantes personagens surgem e desaparecem quase que sem desenvolvimento e sem estabelecer contacto com o espetador, tornando clara a sensação de que duas horas não são suficientes para explorar uma história repleta de factos tão ricos e tão interessantes.

Trumbo destaca-se pelo seu grande potencial e pela interpretação repleta de classe de Bryan Cranston mas peca por tentar de mais, sem conseguir dar a devida atenção a toda uma história que, pela sua importância e relevância nos tempos modernos, deveria ter sido explorada com mais detalhe e de forma mais empolgante. Repleto de detalhes históricos de interesse, este é um filme peculiar que dá a conhecer uma indústria fragilizada e conservadora, não muito diferente da atual, que perdeu ao lutar contra alguns dos seus membros por questões políticas e moralistas que nada têm a ver com o verdadeiro propósito da arte. Uma luta de artistas para restabelecer o bom nome da arte e para promover a liberdade de expressão retratada duma forma quase que inspiradora mas que nos deixa uma ligeira impressão de que podia ter sido contada com mais detalhe e profundidade, tornando-se assim numa história verdadeiramente imperdível.

stars_14

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