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Crítica | A Queda de Wall Street (2015)

  • Realizado por: Adam McKay
  • Com: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling
  • 2h10min

Imaginem-se a levar uma enorme e brutal pancada no estômago após uma boa dose de tripas à moda do Porto numa tarde quente de Verão… Foi mais ou menos assim que me senti, completamente atónito e atordoado depois de assistir a um filme que acaba por merecer uma entrada direta, mas não irrevogável, na minha lista de favoritos. Sem papas na língua, sem rodeios e com um elenco genial, Adam McKay leva-nos a revisitar os trágicos e gloriosos anos 2006, 2007 e 2008 em que de um boom económico, diversas pessoas decidiram apostar tudo contra um sistema em que não acreditavam por terem a perfeita consciência de um enorme e eminente crash financeiro, ainda que sem a noção da verdade cruel, nociva e ilegal que pairava sobre o sistema corrupto. Neste retrato corajoso que explora ao detalhe alguns dos negócios e esquemas, somos conduzidos por grandes atores numa lição de vida que nos leva a achar imponentes e presos a um sistema que não aprende com os erros e que usa e abusa da ganância da mesma forma que o Metro de Lisboa nos lixa com greves dia sim, dia não.

A história d’ A Queda de Wall Street está associada a uma realidade rude e gananciosa que nos levou a passar por um dos piores momentos da história, com enorme crash financeiro ampliado pela desconfiança nos bancos e mercados. Uma história real com uma mensagem de alerta lá mais para o final em que se atenta num padrão semelhante àquele que conduziu à grande crise de 2008 e que tem sido detetado por diversos economistas desde o início do ano. Quer estejamos perto ou não duma nova e ainda mais dura crise, a verdade é que a forma como Adam McKay nos transmite as ideias, as mensagens e sobretudo os traços emocionais das personagens, tanto dos vilões da banca como dos ‘visionários’ que previram a queda do sistema e com isso ganharam uma grande e demorada batalha contra os bancos, é notável, ao evitar um ritmo e uma envolvente fria, negra e rude para dar lugar a uma verdadeira montanha-russa de emoções.

Uma história que começa com as apostas de homens que se limitaram a ver e a olhar para o que ninguém via e que descobriram os crimes, as fraudes e o desprezo de tanta gente com a ganância para ganhar mais algumas notas. Momentos desconfortáveis que nos levam a torcer por estes homens… Que levem eles a melhor nesta guerra de dinheiro e poder! Christian Bale veste a pele de Michael Burry, um homem sem medos que compreende os números e Wall Street como ninguém, Steve Carell é Mark Baum, o sem papas na língua da trama que vive um misto de angústia e de um enorme desejo de derrubar os bancos e aquilo que estes defendem, Ryan Gosling é um charlatão da banca que tenta ganhar uns tostões com o ambiente incerto e, por último Brad Pitt que dá vida a versão masculina daquela amiga dos sumos detox e das manias que todas as mulheres bem devem conhecer.

Sedentos de vingança, os espectadores aguardam impacientemente pela conclusão… Pelo grito de vitória e por aquele momento em que o sistema cai e os maus têm o que merecem. Pois bem, há um instante em que a muito antecipada celebração depressa se converte no dito cujo murro no estômago e nos apercebemos do quão agridoce e ainda mais trágica e cruel é a história… Porque daquela guerra, todos saímos a perder. Bem, todos exceto os grandes ‘maus da fita’, os homens que se apoderaram de um sistema sólido e injetaram-lhe podridão sem fim até que a desconfiança prevaleceu sobre os mercados, e aqueles que apostaram contra o sistema que os desapontava e contra o otimismo, a ganância e a ignorância de muitos. Esta não é uma história para celebrar nem muito menos para descontrair… É para se ver e refletir tanto no que esteve mal como nos erros que se têm vindo a repetir.

De destacar as grandes interpretações, sobretudo o incansável Christian Bale que vive dentro da sua pequena bolha e que viu primeiro aquilo que ninguém tinha descoberto, levando ao desespero investidores que confiavam em si, numa enorme aventura emocional em que os números e a inteligência não o pouparam de levar com alguns sustos e uns bons percalços. A acompanhar o desempenho de Bale, Steve Carell deixa uma excelente impressão com a personagem mais amigável e aquela que acaba por viver de perto e em primeira mão os efeitos catastróficos da crise que se antevia. Contudo, o efeito de falso documentário acaba por ser desnecessário, acabando por dificultar ligeiramente apenas a visualização do filme. Uma história que paira ainda bem fresquinha nas nossas memórias e que é contada com uma disposição algo agridoce, com uma combinação de humor e disposição ligeira e de muitas mas mesmo muitas facadas. Um filme que vive sobretudo do seu argumento catastrófico e realista que, ainda que contado quase que de forma cómica, não deixa de perder o tom sério dos assuntos que retrata. Resumindo, uma grande surpresa para abrir um ano que promete ser dos bons, A Queda de Wall Street revela o pior da humanidade, da ganância à ignorância numa espécie de alerta (muito) preocupante.

stars_16

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3 Comments

  1. Grande crítica. Gostaste mesmo do filme! Cínico e doentio; foi como me senti depois de o ver. McKay em força, cast impecável. E dói até ao fim.

    • Juro que me sentia como um adepto a torcer nas bancadas pelo golpe do Carell e do Bale e fiquei mesmo empolgado com aquilo tudo! Até cair em mim e ver que é por tudo aquilo que as coisas estão como estão e que não sei quantos anos depois a coisa não mostra sinais de mudança. Grande filme… Quase que uma revitalização da malta da comédia num filme sem papas na língua. Até agora, a nível de argumento um dos meus favoritos!

  2. Pingback: Estreias | 14 de Janeiro de 2016 | Panda's Choice

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