Crítica | Lugares Escuros (2015)

Crítica | Lugares Escuros (2015)

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  • Realizado por: Gilles Paquet-Brenner
  • Com: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Christina Hendricks
  • 113 Minutos
  • English: british-flag

Para aqueles que conhecem a escrita de Gillian Flynn, a adaptação de Lugares Escuros é um grande balde de água fria onde pouco ou nada funciona… Um livro negro dominado por uma narrativa tresloucada onde rituais satânicos são o ponto de partida para um massacre que vitimou uma família inteira. Tal como nos restantes romances da autora, em Lugares Escuros é fácil sentirmo-nos presos a um mistério sem fim cujo desenrolar é feito à custa de descobertas macabras e de revelações de personagens cruéis e injustas… O bem-estar é coisa que não existe neste mundo alternativo que nos leva a um tempo em que populações mais isoladas viam com desconfiança e receio o desenvolvimento de cultos e ideais satânicos. E é neste ambiente rural, guiados por uma personagem principal que se vê neste mundo como um acessório, que seguimos a história dos Day ou mais precisamente do massacre que os vitimou. De um lado temos Libby, a irmã mais nova, e do outro Ben, o rapaz da família, preso e único suspeito do massacre… Três mortes numa tempestuosa noite de sangue e nem uma pista concreta… A verdade sobre o que aconteceu? É essa a razão que nos leva a vaguear na história mas, neste filme de Gilles Paquet-Brenner a experiência claustrofóbica de Flynn é convertida num thriller sem emoção e que deixa muito a desejar.

O passado é passado… até que não o seja. Libby Day (Charlize Theron) pensava ter deixado o seu pesadelo de infância na sua pequena e miserável terra natal. Agora, forças que a ultrapassam reabriram o único capítulo da sua vida que ela desejou nunca mais enfrentar.
Sendo a única sobrevivente de um crime, em que, com 7 anos testemunhou a morte da sua mãe e irmãs, Libby vive com o peso de o seu testemunho ter sentenciado o irmão, Ben (Corey Stoll) a prisão perpétua. Quando, 25 anos mais tarde, o grupo amador de fãs do crime, The Kill Club, descobre Libby e a convence a reexaminar os acontecimentos dessa noite, novas memórias e velhos suspeitos regressam repentinamente. Com informações chocantes a serem reveladas, Libby começa a questionar o seu próprio testemunho-chave e parte em busca do seu trágico passado, colidindo com factos que até então tinha como verdadeiros… revelando uma realidade totalmente nova. [Sinopse: NOS Audiovisuais]

Confrontada com questões pertinentes acerca do massacre que vitimou a sua família, Libby Day vê-se confusa e atrapalhada no meio de incertezas que até então via como verdades. Uma personagem que inspira desde logo pouco confiança e que vê um propósito reduzido na sua vida é então forçada a regressar ao passado numa viagem a lugares escuros, aos quais era o seu último desejo voltar. Por muito que seja o talento da Theron, a obra de Flynn não é facilmente adaptável quer pelos traços das personagens, quer pelos temas que relata, e como tal a sua versão de Libby ficou aquém do esperado, faltando confiança e transparência para demonstrar as suas emoções e sentimentos face à história. A Libby desta adaptação é mais amável e não reflete os traços da personagem que Flynn nos descreve, deixando assim de lado parte do potencial do livro. Quanto a Bem, Lyle e Diondra, existem momentos em que estes parecem transcritos das páginas de Flynn e momentos em que se revelam estáticos e demasiado frios, como que se fossem indiferentes aos eventos. Foi este o aspeto que me deixou mais desapontado, na medida em que um pobre desenvolvimento de personagens deitou abaixo uma história diferente e particularmente aterradora que traz ao mundo parte da natureza cruel do Homem.

Quanto à história, esta manteve-se quase intacta, sem personalizações, mas o encurtar do argumento deitou abaixo pedaços relevantes da narrativa de Flynn que nos levavam a conhecer um pouco mais da história das personagens e do dia em que ocorreu o massacre. Lugares Escuros culmina como um thriller que não aquece nem arrefece, passando tudo ao lado como se toda aquela crueldade fosse comum. Talvez porque o tratamento da adaptação não tenha sido o mais adequado ou porque é complicado trazer ao ecrã esta história peculiar, Lugares Escuros vê o potencial desaproveitado e cai no esquecimento, acabando por desiludir depois de uma adaptação fulminante do livro Em Parte Incerta. Aqui não houve lugar para a emoção e para a reflexão… As coisas acontecem e ficam por ali… O ambiente macabro e negro que Flynn nos apresenta foi trocado por um desenrolar mais pesado e em que são perdidos alguns dos momentos fulcrais da narrativa. Mesmo que não seja um desastre, é uma pobre adaptação de uma história cruel e devastadora que me deixou indiferente do início ao fim, perdendo todo o propósito e qualidades da escrita de Gillian Flynn.

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