Artigos, Blogger's Choice
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BLOGGER’s CHOICE: Rui Alves de Sousa

british-flagThis post will be available in English in the weekend.

Com vista a promover o que de bom se faz de jornalismo cinematográfico independente em Portugal, desde Blogues, a revistas de pequenas dimensão sem esquecer grupos, é com grande orgulho que apresento oficialmente o Ciclo Blogger’s Choice! Este é um espaço quinzenal/mensal, consoante à aderência do público que consiste num ciclo de entrevistas como forma de promover uma partilha de ideias entre  blogguers e seguidores. O primeiro blogger a ser entrevistado é Rui Alves de Sousa (Companhia das Amêndoas Máquina de Escrever).

Uma Pequena Apresentação

Sou o Rui, tenho 19 anos e mantenho um blog há mais de cinco anos, que se intitula “Companhia das Amêndoas”. Tem de tudo e já passou por muita coisa, e neste momento está mais ou menos num estado de “coma”. São poucas as vezes que tenho ido lá, até porque escrevo críticas de Cinema e derivados para o site “Máquina de Escrever”. Durante mais de um ano fui redactor da secção de Cinema do Espalha-Factos, e apresento, desde 2013, um programa de rádio chamado “Um Lance no Escuro”. É um talk-show, com alguma música e também algum Cinema, que passa às quartas-feiras, pelas 22 horas, na Rádio Autónoma.

O que te levou a começar a escrever sobre cinema?

Sempre gostei de Cinema e de dar uns bitaites sobre o assunto. Comecei a pouco e pouco a escrever umas coisinhas no meu blog, apesar de serem sempre infantis e descabidas. Com o tempo fui melhorando um pouco, e agora gosto de escrever apenas quando tenho algo de interessante a dizer – porque escrevo cada vez menos, mas perco cada vez mais tempo a escrever. Quando estava no EF escrevia muito, o que fez com que a minha “energia” de escrita se esgotasse rapidamente. Agora tento ser mais moderado, até porque se tenho a liberdade para escreveres as críticas que quiseres, é bom que tente tirar o máximo de cada uma delas, e não escrever mil e uma coisas à pressa e sem nenhum resultado positivo.

Até à data, qual foi o maior desafio que enfrentaste com o teu projecto?

Com o blog, talvez tenham sido algumas críticas monumentais que, na altura em que as escrevi, me deram mais trabalho (mas que se for lê-las agora, vejo que não estão nada de jeito). No EF foi sem dúvida a cobertura da Festa do Cinema Italiano, da qual resultou um óptimo momento de conversa com o director de fotografia Vittorio Storaro. Já na rádio… cada semana há um desafio novo. Proponho-me sempre entrevistar pessoas diferentes, e criar conversas muito particulares com cada uma delas.

Qual foi a crítica ou outro artigo de opinião gostaste particularmente de escrever?

Gostei muito de escrever sobre “O Lobo de Wall Street” para o EF, e de um texto monumental (mas que, se for reler, está completamente falhado) que fiz sobre o “Citizen Kane”. Gosto também de falar de filmes que não vejo regularmente a serem discutidos na blogosfera, surpresas meio desconhecidas que encontro e que sinto necessidade de ir logo partilhar. Por exemplo: há pouco tempo vi “Em Nome do Povo Italiano”, de Dino Risi. Aconteceu-me algo que já não se sucedia há muitos meses. Cheguei a casa e logo de rajada escrevi um texto para o blog.

Ao escrever uma crítica, preferes focar-te apenas na tua opinião sobre a qualidade do filme ou pensas que é melhor dar um ênfase maior à forma como o filme te deixou?

As duas coisas são importantes. No entanto, é a marca que te deixa um filme, ou um livro, ou um disco, ou um qualquer objeto cultural, que revela a sua verdadeira importância. Não são as “estrelas” ou os adjectivos que importam, mas o que o filme te disse e que tu queres transmitir (isto soa muito piroso, mas é verdade, pelo menos para mim – é por isso que há filmes sobre os quais escrevo logo de imediato depois de os ver, porque sinto que tenho de escrever, há algo desse filme que ficou em mim e que tenho de “deitar cá p’ra fora”). E a qualidade nem sempre é o mais importante: há filmes que, não sendo obras primas, são mais interessantes, ou peculiares, do que essas obras primas instituídas. Por exemplo: fui ver o “Performance”, com o Mick Jagger, na Cinemateca há uns dias. O filme é completamente absurdo de uma ponta à outra, mas diverti-me mais com aquela mediania do que com muitos filmes de elevada qualidade. É tudo relativo, o que interessa, pelo menos é o que eu acho, no Cinema, são as sensações que os filmes transmitem. E eu tento passar isso para a escrita (o que acaba por quase sempre não dar resultado).

É mais fácil para ti escrever sobre um mau filme ou sobre um bom filme?

É mais fácil escrever sobre um filme que me tenha dito alguma coisa, independentemente de ser bom ou mau – porque depois o estado de espírito em que o filme me deixou vai reflectir-se naquilo que eu escrever nele (e se tiver de escrever algo sobre um filme que não me disse nada, estou tramado, e já aconteceu algumas vezes). Mas infelizmente, não tenho a capacidade que muita gente tem, de fazer humor com os filmes que detestou. Adorava conseguir fazer isso, e parto-me a rir sempre que leio um texto negativo do Eurico de Barros, ou do Tiago R. Santos, por exemplo.

Com as estreias de A Ascenção de Júpiter e de As Cinquenta Sombras de Grey, o mês está a ser macado pelos blockbusters de Hollywood deixados para esta altura do ano. Qual a tua opinião em relação aos muito famosos Filmes da Pipoca?

Existem, há alguns que são bons e outros que são maus, ponto final. Não é o facto de um filme ser comercial que o torna mau (se assim fosse, teríamos de negar alguns grandes clássicos, porque foram êxitos de bilheteira na época), nem o contrário. Mas o que me parece é que, se na génese do blockbuster, apareceram projectos comerciais com ideias que iam para além da pipoquice (o “Tubarão” ou a trilogia “Regresso ao Futuro” são dois exemplos que admiro), na atualidade a maioria desses filmes só quer vender as pipocas, para depois ter os adolescentes na sala de Cinema sempre agarrados ao telemóvel. Não há imaginação, não há ideias, não há nada (e o “Jupiter Ascending” é um exemplo disso mesmo). E esta era do digital tornou tudo demasiado limpinho e perfeitinho e correctinho… nunca mais um Paul Verhoeven poderá aparecer, nem o “Terminator” poderá ser como o do Cameron (esse novo que vai sair, caramba!, tem tão mau aspecto!!!).

No ano passado, desde Cavalo Dinheiro até ao filme Os Gatos não têm Vertigens, foram vários os filmes a destacar-se tanto por cá como pelo panorama internacional. O que achas que faz falta ao cinema Português?

Faz falta que as pessoas (tanto a populaça, como a massa mais intelectual) deixem de associar estigmas e estereótipos ao Cinema Português, que o deixem de classificar como “género”, e que percebam que há lugar para todos e para tudo. Desde o Pedro Costa até ao António-Pedro Vasconcelos. Faz falta, em suma, que deixemos de pensar o que faz falta ao Cinema Português. Faz falta que deixemos de pensar no nosso Cinema como um “problema”.

Estamos na época dos Óscares, que acaba por ser a altura ideal para fazer-se uma pequena reflexão quanto às estreias do ano passado. Qual foi na tua opinião o filme do ano, e porquê?

O meu filme do ano não está nomeado. Chama-se “A Emigrante” e é do senhor James Gray. Não está nomeado nem esperava que estivesse. Em relação aos Oscares: dá-se demasiada importância. O estado do Cinema, ou pelo menos, o que as pessoas acham que é o Cinema, vê-se pelo mediatismo dos Óscares. A maioria das pessoas quer é saber do glamour e dessas tretas todas. Os filmes são secundários (até porque a maioria deles nem são grande coisa). Mas parece que é só nesta altura do ano que a malta se lembra que o Cinema existe e que o tira da gaveta, porque há aquela ideia de que os Óscares contam para alguma coisa. Então saem milhões de “previsões” e etc e tal. Já enjoa! Só queria que as pessoas não se esquecessem que o ano cinematográfico não começa nem acaba na Academia, e que aquelas pobres almas que ainda acreditam na fiabilidade das escolhas dos Óscares percebessem, de uma vez por todas, que estão erradas. Vejam os filmes, porque entre os nomeados, há alguns que se aproveitam.

Para terminar, como bloguer encontrei uma grande dificuldade em promover o meu trabalho e penso que esse é um dos factores mais desmotivadores para quem decide começar agora um projecto do género. Que conselho darias a um estreante na blogosfera de cinema?

Não tenho muito para dizer, porque sou um novato na área e não tenho grande experiência. Mas o que aprendi mais neste percurso é que, para além de escrever, é preciso falar com pessoas, “ter lata” para chegar ao pé de alguém da área e discutir qualquer coisa. E os festivais de Cinema são óptimos para conhecer melhor os bastidores e certas personalidades ligadas a esse mundo. É preciso ser desenrascado, e não estar à espera de audiências em primeiro lugar, mas que se faça um trabalho que consiga distinguir-se dos demais. Hoje há demasiados textos sobre a mesma coisa a saírem ao mesmo tempo, qual é o interesse de “ser mais um”?

Termina assim esta primeira entrevista do ciclo, pelo que gostaria de agradecer ao Rui e a todos aqueles que se colocaram à disposição para participar na iniciativa. Muito obrigado a todos e, bons filmes!

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